Mural

Prezado poeta Álvaro Santi.
Adquiri, na Feira do Livro de Porto Alegre do ano passado, o livro "Palavra não é coisa que se diga", pequena joia da poesia feita aqui no Rio Grande do Sul. Ali tive a oportunidade de apreciar seu talentoso trabalho. Quero parabenizá-lo pela qualidade da obra que tive a oportunidade de ler. Belos poemas que me sensibilizaram pela beleza e pelo encanto de me conduzirem a tempos passados e repletos de significados. Tanto me agradaram que cometi a ousadia de colocar um deles, mais precisamente o "Soneto VIII", em um texto ou crônica que escrevi por estes dias. Peço desculpas pelo atrevimento, e é por conta disso que quis lhe enviar meu texto. Postei-o em meu Facebook para que alguns amigos o lessem e agora posto-o aqui, para sua apreciação. Advirto que a intenção principal foi, justamente, fazer com que mais pessoas conhecessem seu primoroso trabalho. Eis a crônica:
PASSADO

Domingo passado. Levanto, vou ao banheiro, dalí pra cozinha preparar o café. Passando no corredor avisto o rádio. Ao lado dele o pendrive que o Laion achou perdido numa gaveta de seu quarto. “Ó Ricardo, é teu. Tem cópias de documentos e música. Brasileira”. Bah! Havia até esquecido do dito. Larguei junto ao rádio. “Legal! Mais tarde eu escuto.” Chegada era a hora. Ligo o aparelho e introduzo o pendrive. Deixo em volume baixo para não acordar meu amor. O rádio é um modelo que imita aqueles dos anos 50, que os pais assentavam sobre o criado mudo. Meu velho tinha um. Dois botões: um liga-desliga e outro troca as estações. Porém este é “modernoso”. Possui entrada USB, entrada para fones de ouvido e outras alternativas. O som é um tanto grave, mas gosto disso. Enquanto esquento a água e ponho a mesa a música toca. E eu viajo no tempo.
Esta quarentena a que estamos nos submetendo tem me posto nostálgico. Não uma nostalgia perversa ou devastadora, mas algo que mexe com sutileza em certas sinapses sensoriais muito minhas. A ponto de me eriçar os pêlos em dados momentos. Músicas, poesias, cinema, artes plásticas. Tudo que me demonstre que, como disse Ferreira Gular, “só a Vida não nos basta!”. A Vida, esta bruta! Meu pendrive que o diga! Nele há uma seleção musical que busquei na Internet ao meu gosto. Sambas, rocks, bossa nova, jovem guarda, MPB, enfim, meu ecletismo posto à prova de forma franca. Melodias que abarcam desde os anos 50 até o século 21. E que vão me contando histórias, instantes mágicos, amores e dores, dissabores e alegrias, e a memória voa num devaneio sem fim...
Entre uma xícara colocada sobre a toalha florida e uma espiada na fervura do leite, escuto o piano de um cara chamado Antônio Adolfo, ótimo músico e compositor, tocando sua criação “Não se vive de passado”, gravada em 1972. Talvez poucos conheçam o autor e sua obra. Antônio Adolfo, para quem não sabe, compôs algumas canções que fizeram sucesso na virada dos anos 60 para os 70 do século passado. Entre elas destaco duas: “Sá Marina”, que foi um arraso cantada por Wilson Simonal, e “BR 3”, que ganhou um festival interpretada por Toni Tornado, numa apresentação exuberante. Pois bem: conheci “Não se vive de passado” pelas ondas médias da saudosa Rádio Continental 1120, “the first”, como dizia o locutor da época com sua voz tonitroante! A letra fala do fim de um amor, coisa sempre triste, e o ritmo é lento, mas longe de ser algo que nos incentive a querer cortar os pulsos. Basicamente há o piano do autor e, na metade e no final, o auxílio luxuoso de uma flauta enxuta. Os versos demonstram que quem está colocando o ponto final no caso amoroso é o sujeito que canta, e não definimos bem o porquê disso. Mas fica claro que ele cansou da situação e, embora reconheça que houve momentos bons, está decidido a acabar com aquilo. E canta: “Já não me importa o como é que vai se resolver, pois se você não tem mais nada pra dizer já estava bem na hora de se olhar e tentar se descobrir. Mas já é tarde e eu não quero olhar para trás; o que passou foi muito bom mas já é demais; não se vive de passado e eu não quero mais saber!”. Assim, feito a lâmina de uma guilhotina!
Eu era um adolescente entre os 14 e os 15 anos quando comecei a escutar esta canção. Um ser imberbe e inexperiente nas coisas do amor, mas que já me sentia frustrado porque mergulhava fundo nas loucas paixões que me consumiam naquela época. E aquilo me trazia um sofrimento colossal, uma dor voraz no peito. Passava dias sem comer direito, insone, perturbado. Queria estar perto do ser amado, mas era rechaçado impiedosamente. Sempre. Perambulava pelas cercanias que se avizinhavam aos lares daquelas por quem meu coração sangrava na ânsia de um olhar, um sorriso, uma migalha qualquer e sabia que, naqueles caminhos, até as pedras irregulares dos calçamentos já me conheciam. Eu me sentia um genuíno poeta romântico do início do século XIX, pronto a morrer de amor. E então... ouço no rádio esse camarada cantar que “não se vive de passado e eu não quero mais saber!”. Isso, escutado dezenas de vezes, trouxe para mim uma realidade nova. Era um cara que, definitivamente, não queria mais sofrer. Basta! Chega!! Ponto final!!!
Acabo de colocar os frios, a geléia e a margarina na mesa. Vou até o aparelho e repito a música. Sento-me e fico a refletir sobre isso. E percebo que, nesta segunda audição, começo a discordar do compositor. “Meu querido Antônio Adolfo, estás enganado. Vive-se de passado, sim. SIM!”. E para não finalizar de maneira tão patética este texto, transcrevo um poema que li num livro que comprei na última Feira do Livro de Porto Alegre. O livro chama-se “Palavra não é coisa que se diga” e reúne poemas de oito autores gaúchos, poetas excelentes todos eles. O poema que apresento entitula-se “Soneto VIII” e seu autor é Álvaro Santi.
“Em torno a mim, bailando
vem as amadas mortas, queridas,
e as esquecidas, ainda agora tentando
em mim prolongar suas vidas.

Por um nada não fomos felizes,
dizem umas, e logo ao meu pescoço
se lançam. Outras, de empinados narizes,
me acusam: “- Já não parece tão moço...”

E dançam, com vontade, as musas
de outrora, com escárnio ou ternura.
E logo a elas se juntam, confusas,

outras tantas lembranças, em tal mistura
de louras, negras, índias e cafuzas,
que já não sei meu coração o que procura.

Era isto, minha gente! Prossegue a pandemia e a quarentena! SAÚDE!!

Caro poeta, este foi meu texto. Deixo um grande abraço ao amigo e espero não tê-lo magoado por ter utilizado seu magnífico poema. Com todo o respeito.

Ricardo

Ricardo Gonzalez de Moraes - São Leopoldo



Caro escritor ÁLVARO SANTI
Como pesquisador da "Música Regional Gaúcha", li e reli com bastante atenção o seu artigo "Canto Livre? - Nativismo e Poesia na Califórnia". Realmente, o Movimento Nativista veio exercer uma importância fundamental na Música do Rio Grande, mas os que antecederam, pelo pioneirismo, também foram importantíssimos. O caro escritor fala em dois autores de um livro sobre o Pedro Raymundo. Bem poderia ter destacado os seus nomes. Pois, um dos autores, é este que escreve, e o outro é o jornalista Vítor Minas. Achei importante quando disse no final do artigo, que os trabalhos que são poucos sobre a música regional gaúcha, deveriam ser reeditados... Pois, eu pesquiso há 30 anos sobre Pedro Raymundo e os demais cancioneiros do Rio Grande, o que está sendo enfeixado em trabalho sobre PEDRO RAYMUNDO E O CANTO MONARCA - Uma História da Música Regionalista, Nativista e Missioneira. É claro que falo sobre outros estilos. Pois de 1983 para cá, nunca parei de pesquisar. Pedro Raymundo exerceu uma grande importância para a música regional na Era do Rádio,em Porto Alegre, quando o que predominava era a música urbana e a importada. Ele trancou o pé, divulgando o chote, a rancheira, a milonga, o tango, a valsa, a marcha, a toada... E, na própria Califórnia da Canção Nativa, ele deixou raízes. Pois a milonga Recuerdos da 28, dos grandes compositores de Uruguaiana, Kenelmo Amado Alves e Francisco Alves, tem bem o estilo da gaúchada de Pedro Raymundo. O Pedro Raymundo, o Vargas Netto, o Jayme Caetano Braun, fizeram esses registros dos bailes de antigamente. Veja Os Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto ou O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimos, eles retratavam uma época. Mas o Pedro Raymundo, também gravou Prenda Minha, em 1945 e Boi Barroso em 1951. Ele tem uma toada QUERENCIA AMADA, muito representativa do Rio Grande do Sul e, igual a essa canção, tem muitas outras. Também o Teixeirinha, o Gildo de Freitas, os Irmãos Bertussi, José Mendes, Ademar Silva e tantos outros, todos seguidores do Pedro Raymundo, hoje são ícones da música regionalista. Veja que hoje Pedro Ortaça, Baitaca e Mano Lima, reúnem multidões em suas apresentações. E o Mano Lima é um seguidor de Pedro Raymundo. Veja que temos os três grandes Estilos: Regionalista, Nativista e Missioneiro, que destaco no meu novo livro. Todos importantíssimos. Temos o gaitaço nos festivais (de MÚSICA NATIVISTA), que são heranças de Pedro Raymundo. Temos os temas sociais, cujo auge foi na década de 1980 nos Festivais. Todos importantíssimos. Gostaria muito de contatar com o caro escritor, pois o seu artigo veio levantar uma tese que muito merece ser melhor descutida. Não estou criticando o amigo, pois num artigo é muito dificil de expressar tudo o que cabe num grande Debate, num Seminário. Mas foi importantíssimo o amigo discorrer sobre o assunto, e o contraponto é indispensável nesse tipo de discussão!
Um grande abraço deste admirador do seu trabalho.
Israel Lopes
Advogado e Pesquisador da Música Regional

ISRAEL LOES - São Borja - RS



Parabéns pelo seu novo livro, mais um filho pronto para enfrentar a vida.Quando Chico Xavier e Divaldo Pereira Franco fizeram a primeira reunião não tenho bem certeza se em Uberaba ou Pedro Leopoldo MG,para explanação do Evangelho Segundo o Espiritismo, foram brindados por uma platéia composta de nenhum participante encarnado o que supostamente seria uma decepção, mas chico na sua imensurável sabedoria e calma lembrou a Divaldo que alí estavam muitas almas já desencarnadas que aguardavam os ensinamentos e que o evangelho deveria ser proferido portanto.Nunca desistiram de novas sessões e como sabemos as próximas foram sempre crescendo e se multiplicando chegando ao extremo de lotar os hotéis por pessoas em busca te tais ensinamentos e consolo.Quero te dizer com isto que ao ouvir o comentário do professor Schiroldt sobre o público que presenciou seu lançamento endosso suas palavras, mas de deixo a esperança do exemplo de Chico , um bom exemplo para nunca desistirmos e continuarmos com muita fé ruma a vitória que nos aguarda .
Um abraço Fraterno !


Adriano Luis Turelli Spezia-Consultor de Vendas Escritor e Acadêmico da Alivat.

Adriano Luis Turelli Spezia - Lajeado RS



Bom! Aportarei por aqui, sempre que der! Abraço

helena - Palhoça



Caro Alvaro.
Guardo vivamente na memória teu Soneto XV, que ainda no primário aprendi. Espantei-me, hoje, relendo-o, em teu site, e ví que linhas subtraí..., ainda que o ensejo de tudo que guardei em memória, tenha sido preservado.
Não te conhecia, confesso, e hoje a curiosidade avivou a pesquisa. Surpreendeu-me tua juventude, face tuas linhas tão clássicas a meu ver. Parabéns meu caro. Fizeste-me mais feliz hoje. Desejo-te sucesso em tua jornada. Me visita, se quiseres, escrevo bobagens, por conta do ócio. wwww.paixaonaotemtempo.zip.net. meu e-mail é rinaldoallen@hotmail.com
grande abraço.

Rinaldo

Rinaldo Allen Chaves - Porto Alegre



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